(Vida) breve.
Tínhamos vivido longos trinta anos cercadas de concreto por todos os lados. Nascemos e crescemos respirando a fumaça das fábricas, nossos pulmões atrofiados condicionados com o 'respiro' rápido. O trabalho escravo mascarado exercido por nós, nossas mães, nossas avós. Uma linhagem inteira de submissão. E agora, depois de doze tortuosas horas de viagem, aqui estávamos nós, na frente dessa maravilha tão esperada.
O mar, finalmente ao nosso alcance, trazia uma tranquilidade assustadora principalmente ali longe da arrebentação. As outras mulheres davam gritinhos de excitação, eu quase não piscava com medo de acordar de um sonho bom. E a brisa? que brisa era esta que fazia meu rosto arder. Nós nunca tínhamos sentido brisa sem o barulho ensurdecedor do ventilador. O homem que havia nos levado foi preparar as boias, fiquei passando a ponta dos meus dedos na água, estava gelada e me fazia estremecer como num primeiro encontro.
Não queria mais nada entre mim e a liberdade tão sonhada.
(pulei na água)
E naqueles exatos segundos em que meu corpo todo se sentiu envolto por água pela primeira vez, esqueci-me da vida que nunca fora de fato minha. Esqueci-me dos filhos, do marido, da mãe tão querida que nunca ia poder ver o mar. E vi-me como um grão perdido no meio da imensidão , como um ovo portador de vida nova.
Lá do fundo eu podia ver o desespero no barco e as mãos oferecendo ajuda, mas já não podia retornar a superfície, já não queria voltar.
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